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Poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em Corte (Ibis Libris, 2004) e rio raso (Patuá, 2014). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.  (saiba +)

25/05/2017

a esquerda na churrascaria

quem luta pelos direitos dos famintos
é quem mais tem direito de comer bem
(amem, amém)

escrevo sorrindo

quando eu desinstalar o tinder
ouvirei o canto do uirapuru
sentirei o cheiro do umbu

quando eu desinstalar o tinder
vastas paisagens e vento
o sol como alimento

quando eu desinstalar o tinder
a paz das árvores obtusas
e uma - e somente uma - musa

24/05/2017

vórtice em lava

se ela diz que me ama
tudo está bem
tudo é chama
em meus olhos

amá-la amada:
meu coração é motivação
a batalha é sagrada
e a mente cala

está escrito em mateus:
apenas juntos em cruz e espada
o homem e a mulher podem tocar
a face de deus

23/05/2017

irmandade

jesus foi ao deserto
se livrar das palavras

jesus voltou do deserto
para falar:

- todos podemos beber do deserto

a musa

a musa
é o sopro
que eu mesmo sopro
na vela do poema

a musa é a chegada
o caminho
a partida
o mar
o sol

a esperança

proteção

deito virado pro lado esquerdo
ergo as mãos em guarda e dorme o ego

o corpo, as mãos e o colchão
protegendo o coração
por todos os lados

acordo com um poema enviesado
e na primeira letra do primeiro verso
entrego o coração

22/05/2017

mais coringa menos batman

aproveitar o vento
em vez de tentar construir
um castelo de cartas

hoje não meditei

um poema me editou

a musa subiu no telhado (filme repetido não dito)

a musa subiu no telhado

(salva de pausas)

creio em jesus cristo
alma em maharaja
rio às gargalhadas

peito em hepatite
me desfiz das luvas
soletrei rinite

a musa subiu no telhado:
alta alva e rica
me saúda

a musa muda
a saúva pica
o poema salva

20/05/2017

Prajna com foco no ego

O problema é que a gente cria o personagem, acredita em sua solidez e entra no papel. Mas algo sábio em nós (e além de nós) sabe que não há nada ali. Então, atrás de estabilidade e segurança, automaticamente passamos a defender e reafirmar o personagem. Porque sabemos que ele é um sonho. Pichamos muros com nossos nomes. Assinamos poemas, quadros, filmes com nossos nomes. Queremos pendurar nossos nomes no alto da História. Maiúsculo. Tiramos selfies. Fazemos check-in. Ai de quem vai contra o personagem. "Você sabe com quem está falando?" Solidificamos e comprovamos nossa presença no mundo sólido porque sabemos que não há nada sólido. A profissão parece nosso sobrenome. O ser amado comprova que somos o personagem, e ele é capaz de ser querido, ele é capaz de ser amado e admirado, sólido. Não renunciamos ao cargo, nem com gravações provando que não estamos a altura do cargo de personagem... Lutamos até o final. Até a última respiração. Todos nós.

harpa silenciosa

prolongo da completude a sensação
até a ponta de seus dedos compridos
capazes de alcançar meu coração

estudo da musa

ela do céu de netuno
tem corpo
tato e contato

o arrepio naquela pele branca me arrepia

sua boca dançando na minha:
vou sorrindo

ruas sem luas
nem vagalumes

minhas mãos não soltam
seu perfume

17/05/2017

tento

a pele branca
dela
pede um poema em nanquim
na cama sob a janela
antes do fim

15/05/2017

cristianismo revisitado em sol

ela no centro da casa
branca pele e parede
olhos talvez verdes

ela no centro exato
entre o passado reto
e o curvo futuro

ela a ponte
por sobre
o muro

ela me
foi será é
jesus:

o furo
no balde cego
vazando luz

Substituição

Empoderamento é uma palavra feia. Deveríamos usar amor em vez de poder. Cooperação em vez de competição. Amoração em vez de empoderamento.

seguro morreu de tédio

muitas vezes os poemas que salvo
e não publico
me salvam

saúdo menos o sol e a lua
e a saúde melhora
mas a saúva
mordeu, morde, morderá

o medo da possível mordida da saúva
sangra mais salgado
que a mordida em si

a saliva da saúva
lambe a seiva do sol:
você sombra uma, outra reluz
você passa protetor, ela repele

a saúde a saúva a vida
são incontroláveis
por isso, sãs

13/05/2017

3 ou 4 segundos

posso morrer feliz
porque beijei laura

posso viver feliz
porque beijei laura

a posse por um triz
os passos sem calma

repito ao léu o nome de laura
(laura laura laura laura)
até a língua alisar o céu

a primeira letra pingando na folha
o último olhar pela bolha do vidro

vejo
eu e ela
sorrindo

da segunda vez que vi Laura

o sorriso dela
embaixo de luzes amarelas
dividindo cheesecake com goiabada
e a arte como salvação de tudo

há árvores em são paulo
prédios antigos
ruas tortas
o crepúsculo mais bonito

ela não mudou nada em nove anos:
linda que se sabe linda
beleza que não finda quando fala
quando escreve ou fotografa

a nona de beethoven
e viva la vida em acordes perfeitos
a vida dançando sincronias
(se for sonho, não me acordes)

estou vivo
estou vivo
estou vivo
e explodindo!

estou dançando vida e desejo
aqui dentro adolescente
depois do beijo

12/05/2017

liberdade do juiz

ganhar rios de dinheiro
para prender
pobres sem riso

08/05/2017

amor livro

o meu amor é meu:
não idealizo mais
em ninguém

o meu amor é meu
porque não é meu:
rosa
que abre para todos
seu perfume

05/05/2017

maior é a poesia

meu personagem come uma banana ao meio-dia
meu personagem esquece o poema pra olhar o facebook atrasado
meu personagem cria
e crê no personagem criado

01/05/2017

DeuS

eu sou os múltiplos universos
eu sou o silêncio invisível que irmana o todo

minhas células são galáxias
e vejo o que seus olhos vêem
(mas sei que só veem sonhos)

eu sou a água para tales
a vontade para nietzsche
a palavra para o poeta

eu sou antes do tempo
além do espaço
todas as formas sem forma
(formas de olhar)

eu sou o eu sem eu - antes da separação entre sujeito e objeto
a verdade antes do conceito
a luz antes da sombra

29/04/2017

da fogueira entre os fascistas e os vagabundos lulistas

os que defendem os policiais e o governo
estão mais cegos
do que o estudante inocente de esquerda que perdeu um olho
para uma bala de borracha
pelo bem maior da ordem e do direito constitucional de ir e vir
(não foi golpe)

os que defendem a greve geral contra a perda de direitos
estão vendo como certíssimo
queimar lixo, pneus, ônibus e velhinhas inocentes de direita
pelo bem maior da maioria pobre e trabalhadora
(foi golpe)

há cegueira extremista
nos dois grupos
se não vemos que criamos o mundo com o olhar
e a mão esquerda e a mão direita são partes do mesmo corpo
humano


27/04/2017

poema pré-greve

crio crianças desvanecidas
extremamente imaginárias
arrítmicas
esporádicas distantes mútuas
cruéis com candelabros e caveiras

mesmo assim
doa a quem doer
todas preferem
sem temer

a chama de shamata

tanta coisa a arrumar
na casa
na vida
nos negócios
no amor

mas você senta em silêncio
e depois de dez ou quinze minutos
segue tudo desarrumado

(mas tudo bem)

25/04/2017

jornada

os dromedários trazem
nos vales das costas
o silêncio do vento
e a vista do céu

os dromedários
são meio camelos
são meios camelos
não são um fim em si mesmo

as sombras dos dromedários
são dromedários imaginários
e lado a lado
caminham deitados
com os pés se tocando
nos intervalos do voo

24/04/2017

poexisto

escrevo e crio
poesio:
o cravo brigou com a rosa
no apartamento vazio

poexisto
mas o povão só entende prosa

(então reclamo longamente
do hábito nosso de reclamar sem rimar)

cavo sete oceanos
para chegar perto do que creio
cavo mudo
e perto do deserto
mudo

quem muda?
- eu

existo em pó e delírio
resisto e crio
mas quem?
- eu

o eu é uma placa dourada
debaixo de um sacada
debaixo de uma coroa
querendo estar certo
querendo star
querendo fazer curso de fotografia
pra poder fotografar mulheres lindas e querer mais um pouco

o eu é um louco
querendo querer
(pulsão e tesão - Freud acharia bom)

o eu é uma faixa amarela
gravada com o nome dela
olhando outras cores e faixas e nomes
sem deixar de ser uma faixa amarela
gravada com o nome dela

o eu é um chato agarrado a um hiato
na chuva sublime que ele não sente
porque pensa e teoriza sobre a sublimidade da chuva

o eu é um chato
que prefere ser chato
do que não ser

e o caminho é não ser

(ele vê isso
mas finge que não vê)

23/04/2017

Telas - Meditar é resistir

Você lembra quando foi a última vez em que passou o dia todo sem olhar uma tela? Tenho percebido em mim mesmo e nos outros, dentro da perversa normalidade, uma quantidade de tempo gasto olhando telas cada vez maior enquanto diminui nosso tempo em contato pessoal, próximo, com atenção, olho no olho. Pela facilidade, substituímos um papo com amigos por likes nas redes sociais e seguimos carentes. Gastamos o dia todo vendo recomendações de amigos nas redes sociais em fotos, vídeos ou textos em vez de estar juntos em carne e osso com esses amigos. Lentamente vamos deixando este movimento nos levar. E ele não pode ser benéfico, se pensarmos bem.

A gente já acorda com o celular cheio de mensagens e não resiste a olhar... Se estamos num show, nos desligamos do show para criar um vídeo para as redes sociais, pois a sociedade do espetáculo valoriza mais o mostrar a experiência aos outros do que a experiência em si e embarcamos nessa... Até no cinema não aguentamos mais ver um filme inteiro sem checar o celular. Os livros em papel então, esses objetos antigos, parecem cada vez mais impossíveis de se ler, longos demais para alguém com um celular à mão com um próximo grande amor que pode ter respondido no Tinder.

Estamos treinando nossa mente em não conseguir se concentrar, em ser mais ansiosa, em estar menos presente no agora. Menos satisfeita. Mais agitada, distraída... A resistência pode começar em tornar estes hábitos mais conscientes, evitá-los racionalmente, priorizar nosso tempo para ficar longe de telas. Outro aliado é meditar, mesmo que sejam apenas poucos minutos por dia, com uma certa constância, pode se tornar um hábito muito benéfico no meio de tantos hábitos que só pioram nossa qualidade de vida, algo como uma âncora nos prendendo ao momento presente neste mar de confusão que criamos para nós mesmos.

22/04/2017

21/04/2017

baleias azuis

sente: a escola
não substitui
pais presentes

20/04/2017

desarte

gastamos nosso tempo todo
dentro das mentes dos personagens
resolvendo e criando problemas dos personagens
com urgências, metas, planos...

escorregamos diariamente
do amplo
do céu
do todo
para acreditar num personagem
temporário, limitado e bobo

deixe-me ir - preciso andar

"vou por aí a procurar"
trinta passos pra trás
palavras chave pra organizar o insolúvel
anacoluto do infinito
ouço cartola e mudo
falo A e vou por B
nascem letras embora das mãos
que não sabem mais para onde apontar
(e teimam em apontar pra fora)
"sorrir pra não chorar"

acre desagrado (sem sagrado)

olhar sem precisar do olho:
por que não vejo eu em quem agrido?
(grita o cavaleiro de ouro)

19/04/2017

13 reasons why

Alguém já deu uma olhada nos índices de suicídio desde a 13 reasons why? Só vejo índices de pedidos de ajuda subindo muito, psicólogos vários falando que a série é um gatilho pro suicídio e fica por isso mesmo. Não podemos fazer nada pro Netflix parar de transmitir, se for o caso?

Eu mesmo vi a série toda e nos primeiros episódios achei que era uma crítica social profunda que poderia levar muitos a uma maior conscientização (tipo um soco no estômago pra fazer a gente acordar) mas quando cheguei ao final, já estava achando que o potencial de malefício do seriado deveria ser muito maior do que o de benefício. Não basta um seriado falar de suicídio para trazer benefício, principalmente glamourizando o suicídio e a vingança. Particularmente, a cena de suicídio é tão medonha que desviei o olhar, pior que qualquer filme de terror e quase uma aula de como fazer.

Se fosse uma série orientada por psicólogos ou profissionais especializados em suicídio, com o objetivo claro e explícito de ajudar possíveis suicidas, tudo bem. Pelo que entendi, não é, visa audiência e lucro pro Netflix. Logo, um perigo.

O CVV - Centro de Valorização da Vida - está achando bom um aumento de quase 500% no aumento dos pedidos de ajuda no Brasil, mas deveríamos saber também se aumentou também a quantidade de pessoas se suicidando. Se alguém souber dos números, para não nos perdermos em opiniões pessoais, comenta que adiciono aqui.

* Dei uma pesquisada e não estou sozinho com esta opinião:

http://www.newstatesman.com/culture/tv-radio/2017/04/netflix-13-reasons-why-suicide-irresponsible

http://www.dbknews.com/2017/02/22/13-reasons-why-netflix-suicide/

17/04/2017

das gargalhadas

eu só lembro de dar gargalhadas a ponto de chorar de rir na infância e adolescência. acho que meus amigos também. deve ter algo a ver com o que chamam de normalidade. o peso e seriedade atrelados a visão de uma felicidade no porvir, distante, a ser conquistada, engatilhada na palavra quando.

15/04/2017

trova pra postar no face

ninho de caramujo distraído
por passatempos e metas
tentamos matar a sede
bebendo água salgada

14/04/2017

paz (coa) impossibilidade da mão

ela cheio de silêncio:
o espaço entre o estar
e o não estar

nenhum movimento possível
difícil
respirar

os dias em superposição de fraqueza
o grande vão
entre star e não star

(pontes afastando chances)

você gosta de rock?
você gosta de desenho animado?
você gosta de filme dublado?

(me permito ficar dentro do muro
agarrado ao vazio
não acreditando na vastidão do olhar)

indefinição no plexo
como se fosse possível estacionar o trem
e parar quieto
com sua mão longe

indefinição no universo
como se fosse urgente
estabilizar a última estrela

ela silencia poesia
e já nem sei que dia
adio

papos profundos não fluem
conversas banais não fluem
somos rios secos
de sorrisos mancos
descendo aos trancos pro oceano
sem tempo

já não creio em criar
nem na tatuagem perfeita como sinal
de salvação

já não creio na perfeição

já não creio nem no que escrevo
e contamino com palavra
o que o silêncio já matava

13/04/2017

nada(r)

a praia desertifica pulmões
a praia plúmbea
pútrida

sal arde as narinas duras
nada dura
nada cura o mal

sob o mesmo céu
iodo
alga
lodo

o mar gritará toda manhã
um poema vazio
para o nada

toda onda é vã

12/04/2017

o escafandro e a borboleta

cada letra é um salto e uma flecha
para a comunhão
o encontro com outro ser humano

o salto da espuma do abismo
do que realmente é
para o que poderia ser

a flecha
tentando alcançar a juventude
que se afasta numa barca lenta
gemendo nas ondas

um piano começa em som
teclas brancas de areia
vem e vão:
mãos

11/04/2017

(falta de) tempos pós-modernos

não há tempo para amar
mas tempo há
para o facebook

10/04/2017

não nos tocamos

assim fomos criados
assim criaremos

a casa
em ordem

oferecemos diariamente
conhecimentos, posses, críticas e conselhos
(principalmente pra manter a casa em ordem)

pais aos filhos
filhos aos pais
geração após geração
formais

depois reclamamos
dos conhecimentos, posses, críticas e conselhos em vão:
nenhuma gratidão
decepção
decepção

(a casa em ordem
nos vendo jantar em silêncio
mesmos lugares na mesa
estátuas em movimento)

assim fomos criados
assim criaremos

(...)

mas há exceção:
lembro que toquei uma vez
a mão de minha avó paralisada
com olhos de pássaro sem asa
e os olhos sorriram
(e já não tinham casa)

07/04/2017

solte seu coração no da musa

solte seu coração no da musa
pétala vagarosa tocando o lago tranquilo

solte seu coração no da musa
tatuagem de verso pra eternizar o instante

solte seu coração no da musa
sutileza suficiente para dançar distraído

solte seu coração no da musa
adivinhando profundidade

porque ela merece
porque você merece

(es)colher e faca

tenho me ocupado de flores
pra não colher o tempo
de plantar amores

06/04/2017

descrição

noite alta de oceanos desertos
ouço o som da secreção estalando na garganta
antes de cada tossida incontrolável

(a testa - sempre quente - dói a cada tossida)

acho que tenho 40 anos e não sei expectorar

mas tô melhorando
a febre constante caiu de 39 para 38 graus no terceiro dia
com variações tão irrelevantes
quanto os cálculos que aprendemos em engenharia elétrica na ufrj

algo em mim matematiza as agonias
para tentar fazê-las tender a menos infinito
sem ir ao médico
(dizem que a poesia salva)

por exemplo
agora temos o paradoxo do paracetamol:
ao persistirem os sintomas ingiro-o
mesmo com 36 graus de febre
mas aí a febre vai a 39
e cai e suo
suo mais do que o elemento água em meu mapa natal

e surge o dilema do sono:
(A) com o ar condicionado ligado, resseca a mucosa e tusso mais, mas melhoram os mosquitos
(B) se me cubro, suo mais e tusso menos, mas os mosquitos ainda me acordam pelo som
(C) se desligo o ar condicionado e me descubro, há duas opções, a seguir:
opção 1 - não ligo o ventilador e os mosquitos me devoram
opção 2 - ligo o ventilador e tusso mais (volte para A)

matematizo hierarquicamente no meio dos sonhos curtos
formas trigonométricas que precisei de professor particular para entender no martins
formas de não contar carneiros para não acordar
e consigo

outro exemplo
se a narina esquerda se fecha
e os dois remédios distintos não funcionam
viro a 90 ou 45 graus para a direita na cama

se fico assim um tempo
melhora
(a narina mais alta destapa e a livre se tapa
na razão inversa do quanto pode ser longa uma noite)

se fico tentando não tossir
tusso

se desisto
durmo

(...)

5 dias a 40 graus de febre e fico tonto
com dor atrás dos olhos e nas articulações

só então vou ao médico:
era pneumonia

- diga 33 (não houve a melhor parte, bandeira)

o rombo em meu peito preenchido por um calombo interno
que dói
eu tusso e não sai
eu cuspo e não sai
arroto e não sai
desisto

radiografia
exame de sangue
tomografia computadorizada
(as atendentes tão mais carinhosas que as médicas apressadas...)

- a garganta tá limpa (mas arde)
- dipirona é melhor que paracetamol (sempre?)

algo aqui sentiu que ia morrer
algo solene e alvéolo
preso ao peso do calombo no plexo

lembrei tanto dela
(meu anexo)
e quis namorar sem medo
pra morrer amando
(na maior beleza de ser tarde, não cedo)

há uma beleza em dor no peito
mesmo do lado errado
tipo drummond caminhando meio curvado
ou um parto em casa

fome já não há, quase
aceito o gosto azedo em tudo
e passo a beber mais limão

fossas nasais congestionadas
governar é abrir espadas

como pra não morrer
e a energia gasta pra digerir
não me permite verbar

então eu deito à direita do antibiótico
ouvindo-me fogos de artifícios e clarins e exércitos e batalhas
no meio da tarde chuvosa
e entupo as narinas da gosma infinita dos brônquios

durmo pouco
durmo os poucos sonhos que a dor permite
cada vez mais curtos
(pensamentos cada vez mais rápidos)
até o limite da loucura com a alucinação
passando por um poema louco
de experimentação

e tudo se torna uma música linda em um filme cult
(e já nem sei se dormi)
sensação de comunhão
comandando e sendo levado
pelo rosto de infinitos rostos do sonho
rostos de nuvens de dragões vermelhos
cavalgadas de valquírias...

tudo tão solene quanto meu calombo

04/04/2017

uns likes para doer menos

que ótima oportunidade para valorizar o simples. não sei o que tenho mas a febre não abaixa além de 38, 39 graus desde ontem. a cabeça dói, as costas doem, respirar dói, se deitar na cama dói, se cobrir dói, se mexer dói, ficar parado dói, a água do banho dói onde toca, os dentes doem... mas pense: quando nos alegramos por fazer isso tudo sem dor?

03/04/2017

renoir

escrever cores
circulares
acarinhando a tela

pincelar a essência
sem adjetivos
nem esperar
a guerra acabar

a beira do centro
a pele
o peito
a flor

tempestade sem métrica
nenhuma réstia de azul no céu
rimas sem foco

a dor passa
a beleza permanece

02/04/2017

liboriando no escuro infinito

espero-te
como um cego fingindo firmeza
segurando com os pés
a delicada taça de cristal
embaixo da mesa
de ponta cabeça

espero-te
considerando a lei da gravidade
sabendo tua fragilidade

mal espero teu futuro nosso chegar
sabendo-me equilibrista cansado
em cima do céu, da palavra, do espaço sideral
em cima do muro
que nem há


*(poema relendo o amigo poeta Luiz Guilherme Libório, sob a influência de uma musa não revelada)

01/04/2017

líquido

é tempo de silêncio
para ver a banda passar
se drogando pra não falar
de política

o preço do petróleo
estranhamente
não aumenta nem diminui o universo
(apenas nossas teorias)

a praia me aceita exato
no meio do caminho
entre a paz e a mulher futuras

ambas futuras e alvas
ambas definitivas
incisivas e salvadoras
até que a morte nos pare

som e sal
rindo do furo
do pneu dos planos retos
da fruta nunca madura

a praia me aceita presente
ainda bolando impuros verbos
autocentrados

(minha pele quer pele
minha pele quer toque
minha pele quer querer)

é tempo de beijo roubado:
sísifo construindo eternamente o muro
pra prender o amor
sobre as ruínas do passado

carruagem e roda da vida

enquanto tento me agarrar
tonto
à quina do círculo
não me desprendo
do hábito circular
de olhar
pra fora

31/03/2017

Antologia de Poesia Brasileira Contemporânea Além da Terra Além do Céu

Pessoal, ajudando a divulgar o lançamento da "Antologia de Poesia Brasileira Contemporânea Além da Terra Além do Céu", da Chiado Editora (tive a honra de ser convidado a participar com um poema de minha autoria). Repassem aos amigos de SP amantes da poesia!<3

Antologia de Poesia Brasileira Contemporânea Além da Terra Além do Céu

24/03/2017

Ais

Os repórteres reclamam nos jornais. E nós reclamamos dos repórteres reclamando nos jornais.

23/03/2017

ainda sobre a forma

tem os poetas atrás de fama
que declamam em grupos
como atos corpóreos teatrais eflúvios apócapos

os poetas atrás de fama que defendem o povo
o direito das minorias
a poesia como forma de protesto e revolução

os poetas atrás de fama que se encontram
apenas com amigos mais famosos
que não falam palavrão
que conhecem gente do jornal, da universidade, da política, da puta que pariu

os poetas atrás de fama no instagram
que postam curtas antíteses
nos horários melhores segundo suas equipes de marketing digital

e há os poetas dentro de casa - que nem se acham poetas
que escrevem como cortam as unhas
e - estranhamente - fazem poemas

18/03/2017

pneumosábado

a roda da vida
gira

a roda da vida
nos leva pelo mesmo caminho
ao mesmo resultado

a roda da vida
aperta o peito
e nos empurra
para o alívio errado
impermanente

infinitas vezes
infinitas vezes infinitamente
se não cansarmos

e enquanto não surgir
um cansaço
total
imenso
sincero
absoluto
não sairemos dessa tontura
quase automática

17/03/2017

take me out tonight (there is a light that never goes out)

trôpegos dirigimos
carros novos
em círculos
ouvindo rádio
piscando faróis
com pressa
de voltar
pra casa
sabendo
em algum lugar azul
que não há mais
casa

friboi frita

O ator da Globo ganha uma grana pela propaganda sobre a confiabilidade da carne, a Globo ganha outra grana para veicular a propaganda sobre a confiabilidade da carne e o povo brasileiro segue comendo carne podre vendo o Jornal Nacional.

NUNCA MAIS COMPREM ESTAS MARCAS: Da JBS: Friboi, Seara, Swift, Angus, Big frango, Frangosul, Rezende, Confiança, Bordon, Doriana. Da BRF: Sadia (e seus produtos), Perdigão (e seus produtos), Claybom, Miss Daisy, Paty, Do Bom, Pense, Deline, Avipal. E estas.

16/03/2017

abertura

entrego ao silêncio
meu nome
meus hábitos

entrego ao silêncio meu tempo
minha ilusão de nascer e de morrer
e tudo que acumulei
(atrás de uma estabilidade que só há no silêncio)

entrego ao silêncio meu corpo
minhas dores
meus defeitos
meus amores
meus jeitos
minhas conquistas
meus possessivos

entrego ao silêncio
minha pressa
minha doença
minha esperança
meu medo burro
minha dança
meu muro
minha rima
meu murro
minha certeza
minha lógica

então
a sós
entrego ao silêncio
minha voz

grande parte dos grandes mestres budistas eram mendigos

não vemos o boi em chamas
nem o frango torturado
na carne embalada dormindo no mercado

a realidade sem ar se tornou
o que a porcaria congelada dos jornais
querem mostrar

cremos nas canções
que repetem poeticamente:
"é impossível ser feliz sozinho"

e assim - de forma banal - criamos
todos os dias, todas as horas
além do horário comercial
as grades de nossa gaiola

por isso é tão difícil a empreitada
de silenciar - não fazer nada
porque é do que mais precisamos

14/03/2017

lençol

este lençol aqui

que sinto pelo tato
e me parece meu

para uma traça
será comida
sentida pelo sabor

para um sádico
será uma forma de criar
um chicote e pavor

para uma costureira
será um conjunto de fios tecidos em arte
retidos unidos com técnica e retina

para um assassino
será um meio de enforcar alguém
se divertindo

este lençol formado
de fios de algodão
que nasceram da flor de uma planta
que por sua vez nasceu do grão
de outra planta
e assim até o infinito mistério da criação

este lençol aqui
mudo
fio a fio
é isso tudo
porque é vazio

13/03/2017

campo grande (ou a primeira vez que a vi)

estou vivo
no meio do dia seguinte
quase meio-dia

vento e sol
lá fora
aqui dentro

som do mar
enorme

uma tatuagem
forma poesia
no ombro-ar

a busca de algo maior
nos irmana

primeiro beijo de flor
de frente pra flor
com outra na nuca

o encontro
o encanto
o canto silencioso
de borboletas no estômago

silêncio de cor:
não escrevo nada
que ameace a delicadeza

(nem a palavra nuvem
nem a antiga vontade
nem a nova certeza)

10/03/2017

jazz tranquilinho

lembranças de mãos dadas
esperanças de mãos dadas

luz neon
comida
bebida
garçom

a lua cheia sustenta
os prédios da cidade
e seus muros

arde lá fora
o futuro

07/03/2017

para nise da silveira

fernando molhado
ficou louco e foi internado
quando a menina que tocava piano na casa da patroa
casou com outro

passou a pintar o quadro
com os detalhes da casa
da sala do nada do quarto

e se curou pela fala desenhada
num dia de chuva azul-horizonte
e amor (maior) de outra fonte

04/03/2017

canto de ilusão vaporosa e imprescindível

ela se disfarça de sonho
pra me embriagar de nuvens

leve sorri de branco
e longe ou perto
traz as causas e condições
para meu sorriso mais sincero

ela pode ir
ela pode vir
eu estou aqui
sorrindo

25/02/2017

poema em loop

esgarçar o plexo
já destruído
apostando em apontar
a flecha da energia e atenção combinadas
para fora

então
esgarçar o plexo
já destruído
apostando em apontar
a flecha da energia e atenção combinadas
para fora

então
esgarçar o plexo
já destruído
apostando em apontar
a flecha da energia e atenção combinadas
para fora

então
esgarçar o plexo
já destruído
apostando em apontar
a flecha da energia e atenção combinadas
para fora

então
esgarçar o plexo
já destruído
apostando em apontar
a flecha da energia e atenção combinadas
para fora

então
esgarçar o plexo
já destruído
apostando em apontar
a flecha da energia e atenção combinadas
para fora

então
esgarçar o plexo
já destruído
apostando em apontar
a flecha da energia e atenção combinadas
para fora

então
esgarçar o plexo
já destruído
apostando em apontar
a flecha da energia e atenção combinadas
para fora

(108 vezes)

então
cansar
e apontar
pro vermelho do próprio coração

23/02/2017

joseph mallord william turner

um céu bruto
ameaça rouco
embarcações

as cores dançam
como fumaça
e a vida
a vida inteira
passa

o último plano
antes da tosse última:
o sol

22/02/2017

tudo água

houve um tempo
houve raras pessoas
em que a coisa fluía

poesia que nos surpreendia aos dois
sem construção, esperança ou depois
tipo adélia
tipo olhar de borboleta
tipo música de zélia duncan
infinito sem esforço, natural

hoje
teimoso e velho
construo demoradamente
(sorrindo do elo de mim mesmo)
arquiteturas impossíveis
engenharias pesadas
castelos difíceis
sabendo que as contas não batem
que os pregos são provisórios
que as vigas não aguentam

hoje só vejo
com olho de percevejo
a ponta
da borda
da quina
do navio
que
naufragará
assim mesmo

(pelo menos
doem menos)

21/02/2017

elis

mulher em forma de pássaro

coração em ti voz
expansão de si - sorriso algoz
força aberta na frágil lira
lágrima quebrada antes do dia
coragem viva que escrita se atira
poesia

19/02/2017

horário: deverão

o som leve dos pássaros
às 6 da manhã de domingo
acorda lentamente
o dos caminhões

avidya

a cada vez
que o batman soca
o olho de alguém
aumenta
sua
cegueira

18/02/2017

rita medusa me inspirou

somos peixes de facebook
construindo
nosso
aquário

atualizações constantes

bolhas de amigos
bombas de ar
muitas bolhas de amigos

aquário quadrangular
igreja de solidões
conectadas a telas
refletindo nossa carência

e ampliando-a

15/02/2017

o poeta é a pedra no meio do caminho do poema

tenho todas as chaves
e não sei
para que
virar as maçanetas

a culpa não é do celular

a culpa não é do celular, desde sempre aprendemos e mantemos o hábito da insatisfatoriedade. esta fome eterna pelo externo apertando nosso esterno e nos afastando do eterno. o celular é só um jeito de ver um filme sem ver um filme enquanto jantamos com fome de uma curtida no facebook, de um coraçãozinho no tinder, de uma resposta positiva em qualquer uma dessas infintas virtualidades. o celular nos permite buscar fora do presente promessas virtuais de "dias melhores virão'', sem nunca sair dessas promessas virtuais, pois sempre podem vir "dias melhores". o celular possibilita andarmos na rua tropeçando um pouco mais ao olhar emails, pensando na chance do novo emprego ou de perder o emprego antigo, na resposta da possível namorada futura ou do possível fim do namoro. mas  sejamos honestos: tropeçaríamos também sem celular. porque deixamos nossa mente querer demais, porque nos habituamos ao estado de carência, porque repetimos este modo de olhar. o problema é a sensação de alívio, conforto e salvação fora de si mesmo, nas coisas do mundo. do fundo do poço da carência, o celular é o brilho falso que nos afunda ainda mais, porque deixamos. porque todo mundo faz. a corda é a generosidade. oferecer em vez de querer. olhar pra fora de si. acorda.

09/02/2017

um livro de poemas é tipo um unicórnio

dormi demais e sonhei que andava pela cidade
do rio de janeiro
até passar num set de filmagem
e reconhecer um poema

eu precisava passar
mas o poema era bom
então deitei no chão e fiquei

vis os efeitos especiais da declamação
a diretora reclamando das pessoas atrapalhando ao chão
a namorada de cabelo cor de rosa com olho brilhando
impressionada porque ele teve uma hora de prosa com um poeta famoso

mas o que mais me impressionou
é que o poema
era bom
então fiquei:

"miraflores de auréolas mirabolantes
acordar com mais de mil palavras na goela
se espremendo pra gritar em ordem revolucionária
que passo
e passo a passo
ainda não me basto
e por mais que me esforce em cada ato
quero gritar pra ser mais amado

o fio da meada o fio da faca o fio da revolução
perdida pro ego
o dom
perdido pra fama
como poemas curtos
que nada dizem
pra ser mais amado
e a fortuna crítica
e os concursos literários
e as conquistas acadêmicas
e as mulheres jovens de cabelo cor de rosa
(com olhos brilhando)
não bastam
nunca bastam

mas é nesta dança
que balança e cansa
que estamos e sempre estaremos
enquanto não virmos
além do breu
além do eu"

era mais ou menos assim
o poema de que eu não me lembro

07/02/2017

mandala vajra

olhamos as coisas e não as vemos. olhamos as coisas e não nos vemos. sem esta separação entre sujeito e objeto nem há linguagem. sem o silêncio primordial, surgem conceitos duais...

olhamos a parede e não vemos o tijolo que a constitui. parece óbvio: parede. parece sólido. é automático. olhamos o tijolo e não vemos o barro de que é feito... assim vai até o infinito.

uma carroça é suas rodas? é suas tábuas? se tirarmos uma roda, continua carroça? qual o limite do que podemos tirar para continuar carroça? e o raciocínio oposto: se juntarmos rodas e tábuas, quando começa a ser carroça? a carroça está no nosso olhar e não percebemos.

linhas traçadas num papel em duas dimensões formam em nós a experiência de um cubo em três dimensões. e nem assim notamos que participamos do que vemos, surgimos junto, criamos junto.

por isso, se estamos num avião caindo sentimos medo. não vemos que não há nem o avião sólido, nem o eu sólido.

fora desta separação, fora do sonho, sem cessar, sem nascer nem morrer, a felicidade verdadeira, incondicionada. silenciosa de conceitos, se reconhecendo lentamente a si mesma em pequenos insights no meio destas letras.

(baseado em vários ensinamentos budistas, do Lama Padma Samten e dos tutores do CEBB)

04/02/2017

la la land

no início parece que vai ser só mais um musical chato, com pessoas cantando do nada, mas melhora muito. lembra o que é cinema, explora as múltiplas possibilidades dessa arte, vai bem além do filme raso, simplório, previsível, padrão de sucesso e de bilheteria. mostra o amor em sutilezas e cheio de verdade. não como o sonho colorido do final feliz, história de príncipes encantados da disney... mostra o amor como o encontro possível, cheio de apesares, momentos errados, planos de vida que bifurcam etc. pé no chão, mas cantado com o coração. pensando bem, graças a esses amores, "dando certo" ou "dando errado" construímos nossas lembranças doces, boa parte de nossa visão de mundo, objetivos e sonhos. não só os amores românticos... quando a luz diminui e a personagem canta a história de sua tia, por exemplo, é maravilhoso ver o poder de um bom encontro (ela e a tia, no caso). uma forma sublime de valorizar os artistas e outsiders que ousam ir além de uma normalidade doente e nos inspiram a fazer o mesmo. os bons encontros nos fazem sorrir pra sempre ao ver ou lembrar um do outro, sem precisar de palavras (que tendem a estragar tudo). agora vai ser assim quando eu pensar em musicais (que tendo a detestar): sorrirei internamente lembrando de la la land (e de moulin rouge) e de como eu me senti cantando junto, o peito querendo explodir, sentado imóvel e silencioso numa sala escura.

22/01/2017

do caminho

o peixe nem nota a água em redor de seu chapéu.
como mostrar-lhe então
ser ele mesmo
o céu?

16/01/2017

do não dar

os amantes são
dois desastrados portando bombas
e olhando relógios

o aumento
dos amantes
causa estrago

os amantes se vêem amantes
na confusão romântica
muitas vezes sem amor

os amantes
no calor
ligam o ar condicionado
ou dormem separados

os passos da dança dos dados amantes
raramente
rimam

as libidos dos amantes
tentam se tocar em alma
mas não dá

então os amantes
se tocam em todo lugar
(principalmente no proibido)

13/01/2017

algo maior

a força da flor
que se abre em cor
na noite imensa

a força da árvore persistente
que busca lentamente
a benção do sol

a força natural
que nos move igual
quando a direção
é para fora do eu

causa mortis

por que tiramos tantas fotos?
porque não nos enxergamos

10/01/2017

a poesia é tua?

(para Flaira Ferro)

dentro do aplauso
no fundo do dom
ecoa o som da solidão

separados e individuais
somos animais de um circo vão
equilibrando pratos que cairão

por quantos anos ainda
alimentarei a vaidade com curtidas?

a distância de todo mundo
com poesias compridas?

eu quero me curar de mim

07/01/2017

colo e boca

olhos de capitu
e cabelos de iracema

versos antes
do poema

a vida desliza
tango com a sombra

lua em cristo
noite escura

versos tão certos
versos de bar
versos de dança
verbos querer

todas as tatuagens de liberdade
querem um porto seguro

bocas
envoltas
na noite
no aperto

bocas perto:
desejo

na noite
o mar é o deserto

estamos velhos do vazio
e o arrepio
é melhor a dois