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Poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em Corte (Ibis Libris, 2004) e rio raso (Patuá, 2014). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.  (saiba +)

31/08/2013

frio

agora estou certo:
fora de nós
é um deserto

29/08/2013

fumaça (pouso)

no caminho pro trabalho
vi uma garça
abanando a chama verde
de uma árvore

ainda há luz

meu pai tinha um chevette com faróis amarelos

chegava do trabalho perto das 7 da noite
eu esperando na janela
via a rua virar dia

o sol não desiste:
volta todo dia
e simplesmente brilha

vejo no olho dele um leão
(redondo o contorno da juba)
e o leão é maior que o mundo

28/08/2013

destino

escrevo letras que nem eu entendo
simbolizando hieroglifos
de certeza antiga

barcos partindo e chegando
inaugurando oceanos
deuses mortos há milênios

escrevo caracteres de sonho
desenho animado
domingo na vó

escrevo tudo que não tenho
nem sei
mas a imagem de uma mulher roda e dança
entre as vogais e as sombras
que me afogam no deserto

27/08/2013

ponte de angústia aérea

ela vai, ela vem:
ela não sai
daqui
porém
nem vou além
de ir também

você sabe que não há saída
eu sei que não há saída
e mesmo assim seguimos
indo

(arrepio de nostradamus)

mais nenhuma música salva
mais nenhuma lágrima alivia
mas ainda há saliva
e às 5 da manhã algo ainda pia

(além de frio, agora chove
sobre a minha pobre rima)

transbordo a poesia
só por pura mania
de esperançar o dia

assim vou
com a mesma expressão
de quem já calou muita dor
e sabe a paixão
menor que o amor

(me disseram isso um dia)



26/08/2013

arrepio

deve haver algo que não estou fazendo:
quebrei os óculos
mas continua frio

22/08/2013

nitroglicerina

enquanto minha epiderme
sustenta silêncios com movimentos leves
espero com secreta urgência: exploda

20/08/2013

mandado

o sapo engolido não cabe na folha
resta a escolha:
me encolho ou me mando?

19/08/2013

outro poema para camila

camila agora fala frases inteiras
e pede pra família toda dar as mãos
e brincar de roda
no meio da sala
no meio do domingo

camila mal sabe falar
mas já nos faz amar sorrindo

18/08/2013

auto-poema 37

criar a cura
com essas mesmas mãos
(as mesmas não)

é tempo de refazer azul
o mar
o sonho
o ar
o som!



e tento tanto

meu mar dos sonhos
tá poluído

sobre o lixo
um louva-deus enorme
branco polar frio
sobre_vive sem se molhar

meu mar tá manso e torto
meu mar morto

16/08/2013

estrangeiridade

a literalidade
sem literatura
me arde

15/08/2013

sereno

estou quebrado no centro
Beethoven cata em teclas os meus cacos
e abaixo da janela gritam gatos
no meio da noite, fodendo ou morrendo

14/08/2013

pequena morte

Para Tayra

ela me toca e me olha, pequena, bonita
a pele branca ficando vermelha
seu corpo perfeito se estica
no infinito de nossa cor favorita

ainda sobre a essência de mudar

trair é meu nome do meio

traio poetas por ser administrador de empresas
traio administradores por fazer poemas bons
traio poemas bons escrevendo poemas ruins
traio Nietzsche por julgar poemas
me julgo e me condeno
mas amanhã já me solto
por bom comportamento
estado de violenta emoção quando do ato
e outros atenuantes

(mas aí fico trancado em casa mesmo
cansado de mim)

trago no meio do caminho
e no fim do nome
a palavra rocha
como promessa falsa:

- nenhuma palavra me é sólida

13/08/2013

sem escolha

danço apenas com a poesia

por inícios breves
por longos fins

danço apenas com a poesia

chovem demônios
queimam serafins

danço apenas com a poesia
no grande salão sem orquestra
da ausência em mim

inesperado

quero casar
e ter
livros

cores futuras

forçosamente fecho
a caixa do passado no plexo

imagino um mundo vazio
um caminho em branco
nada complexo

eu diferente
recomeço novamente
em verso livre
passo a passo
sob o céu do universo

12/08/2013

ninho

horror de caminhos errados
gélidos

todos os meus descaminhos
em desalinho noturno

preto no branco

a balança
de minhas perdas:
lança cravada
em meus ganhos

sonhos quebrados
sem ponteiros

cansado do peso da leveza
meto a mão na massa
de novo

porque nenhuma planta germina
sem água

e nenhuma relação termina
sem mágoa

mas a esperança é verde

a esperança é ver-te
na casa pronta
sem armas
sem trancas
sem quereres

um lençol ao vento lá fora
ao sol de mim
nós leves

você sente mais a pétala ou o espinho?

os lábios dela em outra boca.

*

tremer de sangue e de frio

testo meu sentir
até virar sensação física

sentir algo não fingido, não inventado, não racionalizado
sentir tremendo algo tremendo
em toda a sua pele

apertando o rosto
o estômago

sem se contaminar com palavras
com a mente, que mente continuamente

ah, um sentimento verdadeiro, ao menos

*

e se for só aquela rosa?
e se forçar aquela rosa?

*

vejo o sangue
em todas as pessoas

sangue e guerra

relações?

torturar o que não está
nos seus padrões?

torturar com arte
torturas por partes

relações?

*

vejo uma gostosa comendo alface
e pela primeira vez na vida penso do fundo da alma:
foda-se

- foda-se a gostosa, a alface, o amor livre, OSHO, o 910, o Papa e a paz mundial!

com sinceridade de cão
com realismo budista:

f o d a - s e

*

nojo de ser poeta
nojo de ser humano
de viver em guerra
amando ou não amando

rio do amor livre
com o corpo tremendo de frio
sem ter onde me enxugar

*

mas é isso

boa noite e boa sorte

boa páscoa

bom natal

(sorriso)

vou trabalhar vazio
e voltar pra casa vazia
e não falar disso
com a psicoterapeuta capitalista
que mandei pastar

*

(não há nenhum jeito que não seja horrível)

*

que vida fácil a dos canalhas

*

tenho retraído tanto as garras
que já nem sinto as mãos

*

atenção

em breve vão morrer os poucos que restaram, Fabio:
será você e a noite:
ninguém por perto para ouvir seu grito

11/08/2013

plataforma

cuidado com o vão
entre a mente
e o coração

pai dos dias

meu pai lia
histórias de luz
nas noites negras:

me fez escritor

09/08/2013

indefinição

a ternura
é um desconexo
entre o amor
e o sexo

uma morte rápida

não sei como colocar este estado
num poema bom
mas tenho fome:

ainda me lembro consternado
da forma excêntrica
como você cortava o pão

02/08/2013

a um desenho

Para Tayra

me elevo em azul criança
porque cada palavra perfeita tua
tatua leveza
na minha esperança

conforme nos percebemos mais
mais alt(o) ar
em nossa dança
sagrada e leve

ah, menina
Voo contigo
sem nunca te soltar

Imagem: Duy Huynh