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Poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em Corte (Ibis Libris, 2004) e rio raso (Patuá, 2014). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.  (saiba +)

22/06/2017

bem-te-vi

quando canto eu trovejo
gargarejo montanhas

quando canto
não sou eu
sou a legião que canta
a legião que canto

mas quando me encanto
olho com olhos de fome
e acredito na fome
(polissílaba poliamorosa)

mas tudo bem

pouco a pouco
sigo mais rouco
e um pouco menos louco:

- está tudo aqui

20/06/2017

o chão da cidade

(Para Lama Padma Samten)

o chão de onde brota a vida
está muito fundo na cidade
para brotarem flores

esquecido
soterrado por cimento

o povo passa e cospe chiclete e câncer
no chão da cidade
sem segredo nem sagrado

economia e pressa e breu:
(eu eu eu)

a vida segue mais violenta
pois o chão da cidade
nos separa de nós mesmos

(inspiração)

lá é aqui

outra forma de olhar
outra forma de agir:

sem separar
lá e aqui

19/06/2017

desfazendo amor nos tempos da luz líquida e rasa

nunca vi tantas fotos sorrindo
e tantas pessoas deprimidas

tantas mensagens de paz
e tanta gente ansiosa
(num mundo em guerra)

me calo perante um labirinto de musas
um passo atrás no vazio
da noite

o escuro apressa
minha pressa
e minhas presas alvas
buscam a próxima presa

faço porque passo

minha dor procura
a próxima poesia
não como arte, compaixão ou ternura
mas como cura
como fazer

assim não paro
não paramos
e fugimos da dor maior
do sozinho absoluto
fazendo longe das fazendas

variam as distrações
mas é cada vez mais raro
Fazermos

é tempo de desencontro
onde todos querem algo
que não Fazem

ninguém mais consegue Fazer
nem por vontade nem por distração
porque temos
um celular na mão

16/06/2017

encontro marcado

quando tenho um encontro marcado
o éter brilha o olho
o ar acalma lentamente os pulmões
o fogo aquece e cura cada célula
a água desce pelo corpo soltando cada tensão
a terra está estável, a sala está estável, eu pareço uma montanha
o espaço se mostra muito amplo, maior que o encontro marcado

quanto tenho um encontro marcado
desejo que todas as pessoas
tenham um encontro marcado

quando tenho um encontro marcado
mesmo sabendo da delusão do eu e do encontro
consigo ver a luminosidade e a vacuidade
do eu,do encontro e de tudo com mais cor

(e o corcunda da esquina um pouco menos corcunda)

15/06/2017

tour no quente

a vítima prende o vampiro
no hábito da boca

(voracidade de virgem)

um filete que forma
a coleira invertida
vermelha

a vítima voraz
cultiva vampiros

infec-são

caninos
nada femininos

ando cansado de não estar pronto
ando cansado de ficar puto
ando farto de não ter compaixão
com as poetas que lentamente me matam
porque deito
porque deixo

as musas românticas são cáries
que não tratadas
doerão mais depois

extração:
estar são
em qualquer estação

(star,  star, por que céu da boca andará star...)

dor quebrar hábitos brancos de poesia
sem anestesia

o caminho
a certa altura
dói mais que o samsara

boi boi boi

mulheres

não sei bem em que rinite
perdi a capacidade masculina mais importante:
quanto mais vontade
mais não ligar no dia seguinte

você lê um blog inteiro correndo
feito um idiota
e a pessoa nem nota
que seu nome não tem acento

eu quero cortar todos os cantos sagrados
da minha estupidez cumprida
deixar o hábito ensanguentado exposto
para o gosto das curtidas de desconhecidas

nosso tempo

é isso mesmo, ancião:
cristãos tatuando o nome de cristo
na testa do ladrão

pessoas reclamando de joguinhos e solidão
e fazendo muito pior
com quem aparece disposto a tentar em vão
(com tinder ou não)

e nós que tratemos de olhar
pras nossas próprias falhas
e pra poesia das árvores
(em suas próprias folhas)

as árvores não somos:
nós não atamos
mais
nós não amamos
mas
as árvores fazem sentido

14/06/2017

talvez (peterson)

levo isto no peito:
acariciar com letras
mulheres eleitas

estrear musas
estreladas
confusas ou não

são várias
mas uma por vez
e todas imaginárias

um parafuso a menos?
musas demais?
pior é nos jornais...